sexta-feira, 23 de março de 2007

S.O.S


As agruras, os medos, a ira, as decepções, o nojo, o asco, as infâmias, as quedas, os tumores, as dores, os cortes, o sangue coagulado, as tristezas, as angústias, os tropeços, as lágrimas amargas, a falsidade, o engodo, a mentira, a luxúria, o desespero, a cicatriz na alma, a perda, a gula, a náusea, a inveja, o cisco no olho, a fofoca, a preguiça, a maldade, a raiva, a incredulidade, a desconfiança, a traição, o roubo, o tiro no peito, a cobiça, a trapaça, a ameaça, o desrespeito, a discriminação, o abandono, a passividade, o assassínio da inteligência, a agressão, o tapa, a violência, a perseguição, a resignação, o remorso, a culpa, o autoritarismo, a subserviência, a escravidão, um prego na mão direita, a depressão, a solidão, a psicose, a ignorância, a mediocridade, o infortúnio, o azar, a perda da memória, o descaso, a incompreensão, a saudade, a desilusão, o descrédito, o isolamento, a falta, o olho roxo que ainda dói, a sujeira, a arrogância, a prepotência, a truculência, a empáfia, a hipocrisia, a dissimulação, o veneno invadindo o corpo, a timidez, a insegurança, o esquecimento, o fingimento, a rispidez, o descompromisso, a insensatez, os calcanhares rachados pelo tempo, a injustiça, a fome, a sede, a inanição, a insensibilidade, a rudeza, a grosseria, a barriga cheia de vermes, a doença, a diarréia, o catarro, o pus, a ameaça, a corrupção, um corte na cabeça, a coceira, os erros, a apnéia, os deslizes, a insônia, os pecados, a impaciência, a cirrose, a escarlatina, o ódio, a ganância, o estrabismo, a úlcera, a inconstância, o egocentrismo, o olho de vidro, a vingança, o desconforto, o exílio, o expurgo, a separação, a cólera, o pessimismo, a exclusão, o desamor, a indiferença, a isquemia, a maledicência, a insuficiência, o preconceito, a incoerência, a distância, a imprudência, as fortes dores no peito, a asfixia, a imobilidade, a precariedade, a hemorragia, a desonestidade, a morte. QUE A CORRENTEZA DESTE RIO CARREGUE ESTAS INSENSATAS PALAVRAS.


* Texto produzido originalmente para o trabalho ainda inédito PROJETO SOS, da fotógrafa Fernanda Magalhães.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Eu me lembro quando o poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes publicou, na página Leitura da Folha de Londrina, poemas de um poeta japonês chamado Satori Uso. Era década de 80, eu era adolescente e leitora assídua da página. Recortava as páginas Leitura e fazia um acervo particular que consultava de vez em quando para reler poemas. A página Leitura foi muito importante porque a gente tinha acesso a traduções de escritores estrangeiros que ainda não tinham sido publicados no país. Me lembro de ter ficado fascinada com aquele história do Satori. Um tempo depois eu fiquei sabendo da real história: Satori era como um heterônimo de Rodrigo. Uma sacada fantástica. Agora, o cineasta Rodrigo Grota resgatou este persongem que causou tanto frisson e polêmica naquela época através de seu filme que leva o nome do tal poeta japonês. E mais, convidou Rogério Iwano, historiador e prosador dos bons, para encarnar Satori na telona. Sábado é o grande dia, eu vou me reencontrar com muitas lembranças e sensações.


segunda-feira, 19 de março de 2007

Irmãs




As três irmãs das sombras, das vertigens, que escapam ao olhar, mesmo o mais perspicaz. As silhuetas difusas, que derramam a amargura e a veleidade do tempo. Talvez assim tão fixas, grudadas na tela como alguma sensação que escapou mesmo quando tudo estava sob controle. As irmãs azuis volta e meia explodem na retina. Sem significado aparente ou dia de sol. E mancham esta página de memória de mulheres. Elas também podem ser muita coisa em si mesmas - seres inanimados, pedra, velame, adaga - e sempre não ter a precisão de nada. E assim desmancham-se à nossa frente, a qualquer tempo.


foto de ivana debértolis

sábado, 17 de março de 2007

Novo blog.
Casa nova, depois do despejo, sem explicação, ocorrido no outro endereço.
Aqui, com cara mais limpa e outro astral. Já começamos com um texto hard core.
Então, let's go, baby.


Língua

E aí você acha que está fora de risco neste instante em que me encontra aqui no meio desta rua imensamente iluminada. Muito bem, topou na hora errada com o indivíduo mais perverso do planeta. Dia de fúria. A pele da mais jovem jaguatirica, louca pelo primeiro bote. Olhos de leopardo gigante. Língua ferina e azul como a de qualquer personagem de filme trash tentando lembrar algo como O Exorcista. Muito bem, hoje é seu dia. Agora senta nesta calçada iluminada e imunda e chora de pavor. Porque agora eu vou falar. Frases como trovões, ao seu redor. E não espreite nenhuma resposta. Porque hoje só eu que organizo este discurso colado ao seu ouvido nesta madrugada. Te amedronte, então, se cale ao ouvir o primeiro parágrafo da minha parábola. Resigne-se. Porque eu vou levantar a voz em tufão e dar de dedos e contorcer a face para que você ouça melhor cada sílaba. E aí vai. A noite vai ser pouca. Para tantas palavras duras. E você que veio me desafiar. No meu campo de forças. Vai ser neutralizado por um raio “sei lá o quê”, saindo do meu olhar de puma. Veja bem, não há saídas. Só ruas viadutos avenidas. E se veio até aqui neste deserto noturno de luzes. Senta e escuta. Na aspereza do asfalto preto iluminado. Senta. E engole o que tenho a dizer. Sem mastigar, vai se entupindo das minhas palavras. E vai calando a sua arrogância mal nascida. A sua artimanha azeda. Vai, senta e te cala. Os meus coturnos andaram demais hoje. E eu, de pouca fala. Quero te dizer as verdades aos borbotões hoje. No meio desta rua iluminada, você tem medo e eu, sou rei.
desenho de Glenda Jung
(capturado no google imagens)