sábado, 15 de setembro de 2007




Sábado.

Dia dos Ipês brancos.
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MIUDEZAS


De onde brotam
os textos
que escrevo no fundo do quarto?
De onde brotam
os olhos
que surgem no escuro da noite?
De onde brota
o vento
que arrepia a pele?
De onde brotam
os sons
transmutados em uivos?
De onde brotam
estas palavras
miúdas?

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Coyote - cinco anos de uivos literários



REVISTA COYOTE COMEMORA 5 ANOS

Dossiê sobre Julio Cortázar (com poemas e entrevista jamais traduzidos para o português), inéditos de José Lino Grünewald, Bráulio Tavares, Márcio Américo e do angolano José Luis Mendonça, e poemas traduzidos de Philip Larkin, são carro-chefe da 15a edição da revista londrinense

A revista literária COYOTE está comemorando 5 anos de existência mantendo a orientação de radicalidade tanto editorial quanto gráfica. Em sua décima-quinta edição a revista, editada em Londrina (PR), traz um dossiê de 8 páginas sobre Julio Cortázar (fragmentos da última entrevista, concedida a Jean Montalbetti, um mês antes de sua morte, e poemas inéditos em português, traduzidos por Cassiano Vianna), poemas do inglês Philip Larkin (traduzidos por Luiz Roberto Guedes), um fantástico lipograma de Bráulio Tavares e um poema inédito de José Lino Grünewald, cedido especialmente para a revista por sua viúva, Ecila Grünewald.

Procurando encurtar distâncias entre autores de culturas diferentes e épocas distantes, entre criadores mais conhecidos e outros totalmente desconhecidos, e entre linguagens artísticas, COYOTE 15 publica também poemas do angolano José Luis Mendonça e do paranaense Jairo Batista Pereira, traduções do poeta latino Lucrécio, pelo curitibano Mario Domingues, ensaio fotográfico de João Urban, história em quadrinhos de Daniel Caballero e contos do londrinense Márcio Américo, do matogrossense Douglas Diegues, da paulista Marpessa de Castro, do paraense Vicente Franz Ceccim e do carioca Paulo Moreira.

DIVERSIDADE COM RADICALIDADE

"A revista cresceu bastante nesses cinco anos, chegando em diversos países, especialmente da América Latina. Estamos estabelecendo um diálogo intenso com a produção literária e poética do continente, seja da Argentina, México, Chile, Cuba ou dos Estados Unidos, por exemplo. E o que continua nos interessando, além de revelar novos autores, é a parte mais inventiva, radical e crítica dessa produção. Acreditamos que a poesia, a literatura e a arte em geral continuam capazes de provocar abalos sísmicos no real" — dizem os editores Marcos Losnak, Maurício Arruda Mendonça, Rodrigo Garcia Lopes e Ademir Assunção.

Em seus cinco anos de existência, editada em Londrina (PR), COYOTE publicou mais de 180 poetas, escritores, ensaístas e fotógrafos brasileiros, cubanos, argentinos, uruguaios, peruanos, chilenos, mexicanos, norte-americanos, franceses, irlandeses, ingleses, coreanos, eslovenos, egípcios, espanhóis, árabes e chineses. Entre eles destacam-se os brasileiros Domingos Pelegrini Jr, Sylvio Back, Sebastião Nunes, Karen Debértolis, Micheliny Verunschk, Nelson Capucho, Evandro Affonso Ferreira, Sérgio Sant'Anna, Furio Lonza, Nelson de Oliveira, José Agrippino de Paula, Otávio Ramos, André Sant'Anna, Nilo Oliveira, Manoel Carlos Karam, Marcelo Mirisola, Maria Esther Maciel, Neuza Pinheiro, João Gilberto Noll, Marcia Denser e os estrangeiros Mina Loy, Jim Dodge, e. e. cummings, Charles Bukowski e Frank O'Hara (EUA), José Kozer, Reina Maria Rodriguez e Pedro Juan Gutierrez (Cuba), Victor Sosa (Uruguai), Tamara Kamenszain e Hector Viel Temperley (Argentina), Po Chü-i (China), Guillaume Apollinaire e Jacques Roubaud (França), Adonis (Síria), Yi Sang (Coréia), Edmond Jabés (Egito), Leon Félix Baptista (República Dominicana) e Reynaldo Jiménez (Peru).

Publicou também dossiês com o mexicano Heriberto Yépez, a chilena Cecília Vicuña, a alemã-americana Rosmarie Waldrop, o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar e os brasileiros Mário Bortolotto, Wilson Bueno, Paulo Leminski, Claudio Daniel, Roberto Piva e Chacal. Em suas páginas surgiram ainda ensaios fotográficos de Juvenal Pereira, Eustáquio Neves, Haruo Ohara, Avani Stein, Walter Ney, Cris Bierrenbach, Ana Lúcia Mariz, Pena Prearo e Bernardo Magalhães.

Com espírito irreverente e crítico, lançou, por fim, os Movimentos Contra o Adestramento de Idéias, Contra a Globalização dos Vermes, Contra o Pagamento de Mico, Pela Extinção da Picaretagem Artística e Pela Preservação das Ovelhas Negras.

COYOTE é uma publicação da Coyote Edições, editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak, Maurício Arruda Mendonça e Rodrigo Garcia Lopes. Projeto gráfico de Marcos Losnak. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras. Tiragem de 1 mil exemplares.

COYOTE 15 // 52 pgs. // R$ 10 Uma publicação da Coyote Edições
Vendas em livrarias de todo o país ou pelo site:
www.iluminuras.com.br
email: revistacoyote@uol.com.br / Fone: (11) 3731-3281 – São Paulo / (43) 3334-3299 – Londrina.: revistacote@uol.com.br
PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA (PR)


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Panorâmicas



O mapeamento dos dias

1.

mais um dia
para afligir
as coisas do cotidiano
colocar em ordem
sentimentos inúteis
rostos medíocres
que apavoram o sono


2.

mais um dia
de aflição
diante de situações
insuportáveis
de conselhos dispensáveis
de reclamações ridículas
de detalhes insuperáveis.

3.


mais um dia
sufocante
diante da mesma
platéia
que não sabe
em uníssono
o sentido das coisas
que adormece
diante de cada fala


4.

mais um dia
enfadonho
que aperta a garganta
e mostra como é
inútil
a vida
que desaba como um
fardo
sobre a mesa
de trabalho


5.

mais um dia
que pode ser
cinza
ou
branco
sem cor até
um pedaço de céu
pela janela
ínfimo
trisco de céu

6.

mais um dia
perdido
como o pássaro
em zigue-zague
em direção ao vidro
translúcido

7.

mais um dia
(como é difícil)
mais um dia
de palavras vazias
faladas aos borbotões
intensamente
para causar otites
no ouvido


8.

mais um dia
de silêncios e solidões
de frases recorrentes
no poema
de saudades e
sentimentos
obstinados
que ferem os sonhos
dilaceram
mais um dia

(2006)


* Mapeamento da Lua feito com telescópio por Galileu - capturado no Google Imagens

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Poeta essencial



Rodrigo Garcia Lopes, poeta e tradutor, em parceria com a professora Maria Cristina Lenz de Macedo, está lançando a tradução do livro "Ariel" de Sylvia Plath, a partir dos originais da autora americana. A edição, publicada pela Verus Editorial, é bilingüe, traz notas aos poemas, rascunhos do poema original 'Ariel', além de fac-símiles dos manuscritos de Plath. Também conta com introdução, outras notas e prefácio escrito pela filha da autora, Frieda Hughes, para esta edição.

Publico aqui, um dos poemas que integra a edição:



MEDUSA


Longe dessa península de bocais pétreos,
Olhos revirados por varetas brancas,
Orelhas absorvendo as incoerências marinhas,
Você abriga sua cabeça débil — globo de Deus,
Lente de piedades,

Seus parasitas
Oferecem suas células selvagens à sombra de minha quilha,
Empurrando como corações,
Estigmas vermelhos bem no centro,
Cavalgando a contracorrente até o ponto de partida mais próximo.

Arrastando seus cabelos de Jesus.
Escapei, me pergunto?
Minha mente sopra até você
Umbigo de velhos mariscos, cabo Atlântico,
Se mantendo, parece, em estado de milagrosa conservação.

Em todo caso, você está sempre ali,
Respiração trêmula no fim da minha linha,
Curva d’água pulando
Em meu caniço, ofuscante e agradecida,
Tocando e sugando.

Não chamei você.
Não chamei você mesmo.
No entanto, no entanto
Você veio a vapor em minha direção,
Obesa e vermelha, uma placenta

Paralisando amantes impetuososos.
Luz de naja
Espremendo o hálito das rubras campânulas
Da fúcsia. Sem poder respirar,
Morta e sem dinheiro,

Superexposta, como num raio-x.
Quem você pensa que é?
Hóstia de comunhão? Maria Carpideira?
Não vou tirar nenhum pedaço desse seu corpo,
Garrafa aonde vivo,

Vaticano espectral.
O sal quente me mata de enjôo.
Imaturos como eunucos, seus desejos
Sibilam para meus pecados.
Fora, fora, coleante tentáculo!

Não há mais nada entre nós.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

A Estalagem das Almas na Globonews



A Estalagem das Almas é o destaque do programa Espaço Aberto na Globonews, nesta quarta-feira, 5 de setembro, às 21h30. O jornalista Edney Silvestre comanda a entrevista comigo e a fotógrafa Fernanda Magalhães.

Vale conferir, ficou muito legal.

domingo, 2 de setembro de 2007

Ainda sobre a dor




quarto número doze:
a passagem

E
se do pão se desprendesse o tom roxo da paixão anunciada pelo rádio. O fogo e todos os elementos desabariam sobre o corpo do universo tomando o espaço das estrelas verdes. Num passo rápido de dança. Olhos azuis sob a lua. E se o líquido roxo se derretesse pela terra e manchasse as entranhas do planeta. Insurgiriam-se os mares, provocariam-se os ventos e a desordem nas seivas das raízes. Um clarão insólito depois de uma nublagem da escuridão. Sensações se arrastam em meu corpo. Eu morro. E volto à vida no instante seguinte. Olhos azuis em tom roxo de paixão. Arrumo a gase sobre meu pé direito, ferido enquanto eu corria de uma manada de elefantes durante uma caçada na savana africana. E as lembranças vagam e, por vezes, duvido se penso. Por que em alguns minutos não sei bem classificar o que são todas aquelas imagens que passam por minha mente. Tenho as pernas cansadas e a pele enrugada. Morro. Não morro mais. Ela vem pesada e cruel. Vestidos de cetim, perfume, aragem. E seu cheiro passa perto e forte. Mas, sempre me esquivei porque me ensinaram que devo respeitar uma dama mais velha. Porque sempre soube de sua face horrenda sob o véu preto. Vou e volto. Faço e desfaço meus laços daqui desta aridez. Tenho a boca seca, tenho sede. Eu sei que ela me espia. Desvio meus olhos e choro. Mas é um pranto seco, sem lágrimas. Porque não há mais líquidos em mim, só o barulho do sangue, o marulho do sangue como em ondas pelas veias que já dóem. Não é mais meu corpo que resiste, mas sim o mecanismo enferrujado de meu cérebro. Na engrenagem frágil, poucas lembranças. Um final de tarde à beira de um rio, eu ainda menino seguro a mão de meu pai. O sol se põe e observo sua mão dançando no crepúsculo. Minhas mãos não tem mais forças. Já afastaram muitos de mim. Como numa dança, um grand finale desastroso de um passe de dança. Um braço quebrado, um corte no ombro. Tenho agora todo o tempo que sempre precisei, que sempre reclamei para realizar as coisas que estavam anotadas em minhas listagens de “a fazer”. Tenho todo o tempo do mundo para ler os livros que nunca li, para ouvir as sonoridades do mundo que sempre odiei. Por não entender. Sempre dissimulei, distorci os fatos, nunca falei claramente o que queria. Tenho todo o tempo do mundo e não tenho mais tempo. Minhas mãos não obedecem, minha memória falha. Os sentidos: apenas meus olhos que perseguem a pouca claridade que se concentra num canto do quarto. Tenho sufocações. Falta ar nos pulmões durante a noite. Espasmos. Engasgos. Uma úlcera queima o esôfago. Queima a cada minuto. Amanhã talvez chova. Amanhã logo pela manhã uma chuva fina pelo meu corpo já maltratado pelas inúmeras manchas do tempo. Logo nos primeiros minutos de raios de sol que vão entrar por esta janela, embaçada de areia. Antes de tudo agradecerei a mão amiga do estalajadeiro que durante não sei bem quantos anos tem limpado os ferimentos e trocado as gases do curativo. E passam como um filme dentro da memória preto e branco com glamour minha mulher meus filhos minha casa meu pai quando velho. O último olhar sobre todas as coisas. Meu coração se aquieta. Já ouço o barulho da chuva a caminho.


- d ' A Estalagem das Almas (Travessa dos Editores, 2006)

sábado, 1 de setembro de 2007

A dor de hoje




"A morte não deveria aproximar-se antes que tivéssemos cem mil
fios de cabelos brancos. Deveria ficar à distância.
Cem mil fios de cabelos
brancos são demais para uma mulher."