segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

então é natal e ano novo também

quarto número cinco : a redenção

Eu já não coloco os sapatos na janela. Além de velhos, não me servem mais. E eu chego muito tarde  na véspera . Pelo vidro embaçado de minha janela, que não é a mesma da infância onde deixava meus tênis baratos e sujos, observo há três anos a repetição de um rito. Há três anos se segue a tentativa que já se tornou quase absurda : a construção de alguma coisa no terreno ao lado de meu edifício. É como se todo o dia viessem pedreiros, mestres de obras e engenheiros para desfazer o feito de dia anterior. Como dizia, há três anos a cena se repete. No meio daquelas paredes inacabadas como ruínas de algo que ainda não foi. Em meio a cal, cimento, areia, tijolos partidos, vigas abandonadas e montes, inúmeros montes de pedras cheias de musgos, como se nunca tivessem sido tocadas. Eu observo como um voyeur, nestas vésperas que tanto me afligem. Um grupo de pessoas se reúne ali, naqueles escombros de construção. É um casal com um menino, alguns animais e três homens de roupas longas e a cavalo. Velam um fogo. Embebedam-se na chama e erguem o pequeno como se louvassem. Sinto saudades nesta hora dos olhos de um dos pais de uma dessas vidas que tive em inúmeros anos em diversos planetas. Mas, a constância do fato é o que me alimenta. Uma vez ao ano me desgrudo da subnutrição de minha alma. Me reparto em divisões iguais. Traduzo a língua de meus dedos frouxos de tanta insatisfação rotineira. A imagem  é a redenção de meus olhos. Meus sapatos da infância já estão pequenos e gastos na memória. Mas, no vasculho distraído entre as coisas do armário de sentimentos faço descobertas. Retiro com cuidado sapatos de verniz de uma caixa amarelada. O vento persegue a cortina do quarto. A areia se esfumaça pela fresta de sol. Com os sapatos na mão esmurro a vidraça quebrando o vidro. Vou entregar meus sapatos ao pequeno menino. Não preciso mais perseguir desertos para colorir minha alma. Não vou prosseguir. Deixo que o cheiro de almíscar e mato do incenso queimando nas mãos dos três magos inundem luas, planetas e estrelas desenhados dentro de mim.



do livro " A Estalagem das Almas" (2006)

2 comentários:

Samantha Abreu disse...

acabei de lê-lo essa semana.
Depois quero falar com detalhes.

...mas tua força poética é admirável, Karen!
Adorei!

Um beijO

C. disse...

daquelas histórias que nos fazem imaginar.. gosto muito.