sábado, 9 de outubro de 2010

Um conto antigo


12 X 8

            
Ninguém viu. Ela levantou-se e foi embora. Pisando duro e tentando segurar a dor que vazava pelos lados, na altura da bacia,  andou uns tantos quarteirões quase que instintivamente. Eles a conheciam. Era ritual constante: chega senta estica o braço aparelho apertado mede a pressão. Das artérias. E o sangue corre tranquilo em suas veias. Mas, aqueles homens e mulheres de branco se espantaram. Às tantas horas que eram, aquela mulher só, a caminho. E foi assim, deste modo, que as vírgulas da frase compassaram. E a voz quase sem fôlego apenas disse : o médico. Correu em seguida para a primeira cadeira vazia. Canetas, papéis e algumas perguntinhas burocráticas imbecis. Ela entrou na pequena sala e quase tropeçou na cadeira de tão exíguo espaço.
Veio o tal. Perguntou o que era. O acontecido. Ela arrumou o cabelo prendendo melhor o coque. E contou num supetão só: eucaidotelhado. Palavras grudadas. Mais detalhes. : a televisão não tem muita definição por problemas da antena que já é velha e fica girando no telhado com perigo de cair na cabeça de qualquer um. Então, depois de pedir dois meses para o meu filho resolvi acabar com a questão. Levei uma caixa de ferramentas de meu marido, ele faleceu e me deixou a caixa. Fui subindo devagarinho pela escada e com cuidado cheguei ao topo da casa. É muito bonita a vista ali daquele lugar. O senhor sabe, acho que dá para ver até a cidade vizinha. Eu me lembro de lá, era só mato quando eu cheguei aqui. Diz que tinha até índio, mas eu, às vezes, duvido. Bom, então, eu estava contando né, eu fiquei lá em cima e vou confessar que tive um pouco de medo. Mas, logo eu que trepava em árvore desde menina pegava uns pêssegos no pé lá no quintal para a mãe fazer um suco cremoso. E daí eu comecei a tentar arrumar o estrago que uma chuva com vento tinha feito na antena. Um monte de hastes despregadas daquela parte maior do meio, sabe? Eu pensei que seria bom pregar e achei uns preguinhos  dentro da caixa de ferramentas do falecido. E comecei a bater os pregos e quase perdi o equilíbrio, mas a antena me segurou e fiquei meio pendurada. Dei uma mexidinha, a antena girou e consegui alcançar o meio do telhado e sentei. Comecei tudo de novo e não teve jeito. Perdi o equilíbrio de vez e fui deslizando pelo telhado. Claro, segurei o vestido porque, afinal, uma senhora de respeito como eu não ficava bem...O senhor sabe. E eu caí retinha na calçada. De joelhos dobrados. Aí começou a doer a bacia. Então, resolvi vir aqui. 
Fechei as aspas do relato daquela senhora à minha frente com um certo espanto. Ainda me pego fazendo toda a retrospectiva mental possível. Muitas vezes, em casa, a pia pingando água para desespero de meu bolso e é como se também pingassem pensamentos na minha cabeça. Relances do meu trabalho diário.
E eu confesso, meio desajeitado, que depois de anos de profissão fiquei atônito. É como se estivesse em frente ao primeiro cliente. Aquela vitalidade, aqueles olhos brilhantes desbancaram toda a teoria dos meus livros na estante.
Mas, peguei a caneta como se escrever me fizesse entender melhor. Altura da queda, anotei rapidamente no prontuário. Deve ser uns três metros, ela respondeu displicente. Levantei os olhos espantados e ela me olhou tranquila. Idade. Ah! Moço, eu sou muito velha, o senhor não me conhece direito porque está aqui há pouco tempo. Idade, insisti. 93. Talvez tivesse ouvido errado e, por isso, repeti em voz alta. Era verdade.
Saímos ali da sala, que mal dava para acomodar nossos pares de sapatos sem se chocarem a todo momento por baixo da mesa. Ela me seguiu quieta. Passamos pelos corredores com algumas macas, cruzamos o saguão em frente ao centro cirúrgico e entramos à direita. Sala de raio X. Mas, ela pediu se podia cumprimentar a moça do cafezinho. Assenti com a cabeça. E ela saiu como uma adolescente que vai encontrar os primeiros amigos.
Voltou quinze minutos depois acompanhada de duas enfermeiras. Parou na minha frente, mas não deixou de conversar com as duas. Todas as revistas de ponto cruz prefiro comprar ali naquele jornaleiro conhecido meu. São importadas. Mais caras, mas criativas. Coloquei a minha mão sobre seu ombro e disse suplicante – raio X.
Ela foi. Deitou sobre a caminha sem precisar dar maiores explicações. Radiografamos. Pedi para que esperasse no corredor. Não acreditei nos resultados e chamei o técnico. Havia algum engano, troca de exames, erro no nome da paciente. Não senhor, tudo certo me disse meio indignado.
Lá fora ela esperava sentadinha como um anjo. Voltamos para a sala exígua que teimavam em chamar de consultório. Ela estava um pouco tensa. Disse-lhe que não havia nada, mas precisava examinar a bacia. Esgueirando-se no estreito espaço entre a mesa e a maca de exames sentou-se e ficou à espera. Apalpei toda a região e constatei apenas pequenas dores. Testei reflexos. Muito bons. Medi a pressão. 12 por 8. Batimentos cardíacos. Excelentes. Pulmão. Ouvido. Garganta. Só faltou exame oftalmológico.
Três metros de altura e nenhum pêlo fora do lugar. A senhora tem certeza que caiu do telhado? É claro.  Como eu disse para o senhor eu fui fazer apenas um conserto na antena. Daí parou e encarou-me de frente. Sua mãe..., falou abrindo um sorriso. Paralisei, intrigado. Dona Vilma, não é mesmo? É, ela mesma. Moço, como você cresceu! Nem parece aquele menininho de perninha fina, magricelo que corria com meu filho mais novo no quintal de casa.
De repente busquei no porão da memória. Humberto. Um bom amigo. Engenheiro petroquímico, agora. Salário a peso de ouro. Viagens internacionais. Simpático...como a mãe. Nos encontramos recente num aeroporto. Eu ia para Uberaba. Ele, um vôo internacional.
Foi ele que não quis subir no telhado para arrumar a antena para a senhora? Não, este foi o mais velho. O Bertinho é um mimo só, menino santo. Ele até ficou preocupado quando liguei dizendo que estava com dores aqui embaixo nas costas. O que deu no exame, hein, doutor?
Nada. (Fui lacônico demais, eu acho). A senhora simplesmente não teve nada. Mas, eu realmente não consigo entender como.
Foi nosso senhor jesus cristinho. É, o senhor pensa o quê? Eu só ando protegida com uma medalhinha dele junto aqui ao coração. Afora isso, tem o anjo da guarda, né. E o meu cachorro, o Bentão, que cuida muito bem da casa. E eu acho que outra coisa também...
Mas, o que que o cachorro tem a ver com isso? A senhora... a senhora...Dona Irma, não é? A senhora não caiu em cima do cachorro, né? Não, disse ela dando uma gargalhada, nada disso, ele só cuida da casa para mim.
Bom, então vou dar algumas pomadinhas para a senhora passar aí nessa lugar que dói. Para evitar que fique roxo, sabe, e que a senhora force muito com movimentos bruscos e se torne algo mais sério. Tem também este remedinho para dor, qualquer coisa a senhora toma. Ah, sim, e meu telefone está neste cartão.
Ela se ajeitou no vestido e pegou a bolsa do chão. Olhou bem firme e deu um sorriso. Os olhos brilhavam. Estendi a mão e apertei suave a dela. Macia e quente. Ela virou-se de costas desviando da cadeira e abriu a porta. Quando achei que fosse embora voltou para trás. Ergui a cabeça desviando os olhos das anotações.
Tenho sete vidas como um gato, o senhor é muito novo e vai aprender com a vida. Há momentos que uma mão invisível nos acolhe. Eu sei que o senhor nunca vai acreditar, mas quem me segurou foram dois velhinhos que já bateram as botas há muito. Agora são meus anjos. Eles estão bem aqui ao meu lado olhando para o senhor e rindo. Só virei os olhos conferindo em volta. Ah! O senhor ainda não está na idade de ver.... Fechou a porta.
Depois de anos, ainda tenho dúvidas se vi mesmo uma mão enrugada pousar firme sobre o vestido. É, bem naquela região das nádegas. Aqueles anjos safados.
A senhora ainda mora por aqui. A mesma pressão de sempre: 12 por 8. Nenhum problema cardíaco, nenhuma alteração de saúde. Me manda flores constantemente e me chama de “meu doutorzinho”.
Não sei se por praga dela ou para testar a minha desconfiança nas coisas que não são deste mundo, às vezes, acordo à noite como se alguém se achegasse a mim na cama. Numa madrugada dessas, bêbado de sono, acordei e, não sei bem se sonhei, uma mão feminina acariciava os pêlos de meu peito. Deve ter sido ilusão. Ou um profundo estado de carência afetiva. Ou talvez alguém esteja mesmo guardando meus passos e sempre à espreita para quando eu cair do telhado.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá Karen,
Muito bom o texto. Parabéns!
Ontem, vim num voo lotado de Recife à SP. Um jovem passou mal e a tripulação perguntou se haveria algum médico (passageiro). Um Sr. ao meu lado prontamente se pronunciou e atendeu o jovem. Esse último foi monitorado ao longo da viagem. Melhorou. E lamentavelmente não agradeceu. Coisas da vida!
wilton.garcia.zip.net

Ana Paraná disse...

Amei o texto...
Amei o relato...

Dulce disse...

OH!!! Karen....que coisa linda...senti minh alma neste texto!!! Chorei!!