terça-feira, 12 de maio de 2009

Bruno Morais again















O compositor e cantor Bruno Morais lança nesta quinta- feira (14 de maio) no Sesc Pompéia, em São Paulo, `as 21h, o seu novo CD " A vontade superstar" . Bruno é londrinense e vive em sampaulo há vários desenvolvendo seus projetos musicais. Ele também assina a produção de meu CD de poesia e música - " A mulher das palavras" que será lançado no segundo semestre. Abaixo um texto de Rómulo Fróes sobre o novo disco cujas faixas você pode conferir aqui http://www.myspace.com/brunomorais



A Vontade Superstar


Ao colocarmos o disco pra tocar, somos recebidos por um som de tear que tece uma trama desconhecida. Em descobrir quais fios compõem essa trama e quais os sons formam sua trilha é que consiste o prazer de ouvir o novo disco de Bruno Morais, A Vontade Superstar.

O primeiro fio a ser reconhecido é seu canto. Bruno é antes de mais nada um excelente cantor, cada vez mais raros em nossa música. Se por um lado ele aprendeu direito as lições da Bossa Nova, especialmente no que se refere ao volume de sua voz, sua interpretação muitas vezes não controla o que parece transbordar em sua música: uma verdade e uma emoção que extrapola sua voz contida. É dessa aparente contradição, entre uma voz pequena, mansa, colocada e um sentimentalismo um tanto exagerado, que nasce a beleza de seu canto. Bruno puxa do fundo de seus pulmões todo o ar que precisa para cantar o que seu coração grita, mas controla sua emissão, pois parece acreditar falar mais alto falando baixinho, ao ouvido, confortando a quem o ouve. “Não vamos chorar, não vamos olhar pra trás e não vamos fugir”, proclama em Hino dos corações partidos (Bruno Morais/Tomás Meireles/José Ricardo Passetti), faixa que abre o disco, uma pequena e delicada carta de intenções endereçada àqueles que queiram acompanhá-lo em sua viagem musical.

O disco segue seu bordado e outro fio a compor seu tecido sonoro é o próprio som. Gravado em épocas e estúdios diferentes, o disco conta com um número impressionante de participações, algo próximo de 40 pessoas entre músicos e técnicos. Organizar e dar um caráter a essa avalanche musical de origens muito diversas é o grande mérito da produção comandada por Guilherme Kastrup e Bruno Morais. A sonoridade do disco reflete muito o modo como Bruno se relaciona com a música e o seu desejo de agregar referências e personalidades musicais diferentes.Isso fica claro já na segunda faixa do disco, A vontade (Bruno Morais/Ivana Debértolis), ao lindo arranjo de sopro composto por Tony Chang, do coletivo neozelandes Fat Freddy's Drop, Bruno contrapõe o não menos belo solo de trombone do brasileiro Bocato. A matriz jazz encontra acentos diferentes no som de cada um e nesta junção de sotaques reside a força da canção.

Um exemplo ainda mais radical de um certo enfrentamento entre universos musicais distintos acontece em O mundo é assim, a obra prima de Alvaiade. A batida triste do samba do mestre portelense é transposta para as bandas marciais de New Orleans e seu ritmo marcante traduzido nos beats eletrônicos de Vitamin D, produtor que já trabalhou entre outros, com 50 cent, Jurassic Five e Blackalicious. A tragédia do samba é atravessada por uma sensualidade e uma ironia na voz de Bruno que canta qual um crooner de cabaré, acompanhado não pelo coro abrutalhado das pastoras do samba, mas de harmonias vocais típicas das cantoras de soul. Bruno ainda flerta com a música eletrônica, mas desta vez ela toma caminhos diferentes de seu disco de estréia Volume zero(2005). Se naquele podemos dizer que era mesmo seu assunto principal, em A vontade Superstar ela está à serviço da canção, sendo mais um instrumento do arranjo, produzindo camadas de som que enriquecem o conjunto de cada faixa. Um bom exemplo disso é Planos (Bruno Morais/Marcela Biasi), em que XXXChange, produtor, Dj e um dos fundadores do grupo de electro-rap Spank Rock, que também trabalhou para artistas como, Beck,Thom Yorke e Justin Timberlake, comanda os teclados e programações como mais um músico da banda e o faz de maneira intensa, conferindo à faixa um clima quente, um ar de sedução e altas doses de romantismo, diferente de uma certa frieza comum à música eletrônica.

O grande som do disco, como já disse, está à serviço da canção, e ela à serviço da vontade de Bruno, essa vontade estampada no título e que assume voz própria nos conduzindo pelos destinos do disco, lugares que não conhecemos mas que sua descrição nos aproxima e nos faz querer conhecer. “Você não sabe quanta coisa eu trouxe de lá, de onde você nunca vai estar, um anel de mares, uma multidão de flores e uma estória nova pra você contar” é a Boa Nova (Rafael Fuca/Bruno Morais) que nos conta e é dessa esperança que se impregna seu disco, dessa confiança em dias melhores, ainda que se envelheça a cada dia e cada mês, voltando ao samba de Alvaiade. Essa boa nova, essa esperança, parece ter origem em uma crença quase espiritual, de uma espiritualidade sem religião, nas pessoas e nas forças do bem. Bruno constrói seu escudo à prova de más vibrações. Em Do Inferno 2 (Bruno Morais) alerta: “você, provavelmente, deve ter vindo do inferno pra me atazanar, você vai ver, gente assim não vai pra frente, estaciona, não sai do lugar”, ao mesmo tempo em que cita a melodia de Se Deus Me Ouvisse, sucesso de Almir Rogério nas vozes de Chitãozinho e Xororó. Se por um lado mostra intimidade com o cancionero mais popular, demonstra também seu conhecimento com o mundo do samba mais trágico, do samba mais triste, com uma original interpretação de Pode Sorrir, dos grandes Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Na versão de Nelson, ainda que o sujeito da canção diga saber quando uma mulher quer abandonar o lar e que por isso não lhe causa surpresa quando ela o faz, no fundo, pede, implora pra que ela não o faça passar por essa humilhação. Bruno inverte o sentimento da canção e parece mesmo estar feliz com sua partida, carrega em sua voz uma certa arrogância e escracho num canto bêbado em comemoração de sua liberdade. O samba como autoria também aparece no disco em Hoje Eu Vou Te Acordar (Romulo Fróes/Bruno Morais), sobre uma melodia triste, Bruno escreve mais uma vez sobre um mundo idealizado, possível em seus sonhos,“matei um amigo, pra te acordar, lancei aviões no céu, escrevi o teu nome no ar”.

Há em quase todas as faixas do disco um tipo de ordem, de comando, o sujeito da canção exala sabedoria, tenta organizar a vida a seu modo e segue apresentando seus argumentos a quem queira ouví-lo,“eu que não sei o que digo, acordei tão sabido, querendo falar”,“você vai ver, gente assim não vai pra frente”,“não pense meu amor, não há tempo, não há o que pensar”,“abra os olhos, reconheça”,“pode sorrir pra quem você quiser”. Antes de ser autoritária, é uma voz firme, quase paterna. Nasce da música de Bruno Morais essa voz, que lança sua crença para esta paisagem distante, para o mundo idealizado da canção. Ao nos apresentar esse outro mundo, da nova música brasileira, A Vontade Superstar nos faz crer que dias melhores virão. Na verdade já chegaram.

Romulo Fróes



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